quarta-feira, 18 de abril de 2012

Hipocritamente justo


“It's a little too late for you to come back / Say it's just a mistake / Think I'd forgive you like that”



O mundo tenta, a todo custo, nos tornar um pouco mais justos e um bocado menos hipócritas, embora seja difícil crer nisso como uma tarefa possível. No meu caso, tomar a decisão sopesando a maior justiça e a menor hipocrisia me colocou numa grande encruzilhada paradoxal que jamais pudera ter imaginado estar: se por um lado parecia justo respeitar as escolhas alheias e levar a vida adiante, por outro parecia demasiado hipócrita não levar em consideração o sentimento de vingança que imperava dentro de mim.

Esse é o maior problema do ser humano... hipócritas como somos, levamos a vida “baseados” em valores e princípios que nunca foram nossos, e que alguns jamais sequer tiveram o interesse de possuí-los, enquanto por baixo dos panos apaixonamo-nos e nos deixamos guiar pela vingança e pelo rancor, sem nos darmos conta do comportamento hipócrita que construímos. Mas se o que interessa mesmo é o que aparentamos para os outros, e como usamos nossa retórica para enaltecer modelos de conduta e ideais de justiça, pra quê pararmos pra pensar no que realmente nos dá prazer, não é mesmo?

Não. Eu, no direito de escolha que me foi dado, escolhi ser justo e não ser hipócrita. Impossível? Não, pois escolhi ser justo, mas justo comigo, não com o mundo, e isso implicava no fato de não ser hipócrita e aceitar que a vingança agora era o que me dava prazer, e somente dar a volta por cima era o que me faria sentir melhor. Um pensamento um tanto quanto construído, admito, mas uma lógica necessária para me acalentar naquele momento.

Pensamento aceito, agora era hora de botar a mão na massa e construir as situações e oportunidades necessárias para que as coisas corressem de acordo com o planejado. Assim foi a volta pra casa, filosofando em  meio aos copos de bebida ingeridos, mas com a única certeza de que os pensamentos tomados naquele momento seriam os mesmos a serem pensados depois. Bêbado ou não, aquilo deveria ser feito, e agora não havia tempo ou possibilidade de voltar atrás. Merda feita, era hora de consertar.

domingo, 15 de abril de 2012

Instinto


"What goes around comes back around / What goes around comes back around" 


O último encontro com Felipe não tinha sido executado exatamente de acordo com os planos, ainda por que àquela altura dos fatos já não havia plano, tampouco alternativa qualquer senão assumir a derrota e recolher as armas do grande jogo que aquilo tinha se tornado. O que era óbvio, entretanto, era que a ideia de sair “por baixo”, com o rabo entre as pernas, não era bem o que eu pensava naquele momento.

Quanto à Felipe nada podia ser feito, já que há muito o mesmo havia se separado dos outros, e provavelmente ainda encontrava-se dentro da boate, entregue às bebidas e à toda sorte de mãos que houvessem por lá; quanto a mim, contudo, ainda me restavam amigos, e junto à eles um sentimento de pena que eu jamais havia visto no rosto de qualquer um deles, como se aquele momento fosse único e inesperado, e como se não soubessem que o estava por vir seria ainda pior.

Dali realmente já não havia mais volta, sobretudo para mim. O que havia começado como um flerte, pra um tornou-se brincadeira, pra outro coisa séria, e agora me encontrava em um caminho sem volta, rondado pelo sentimento de orgulho, que em condição alguma me deixaria fraquejar e voltar atrás.

[...]

Instinto... como entendê-lo? Por vezes nos colocamos em situações estranhas ao nosso comportamento, nos submetendo à condições aquém de nossos princípios – muitas vezes humilhantes – por entendermos ser tal situação a melhor para aquele nosso momento, indo de encontro ao que estipulamos como modelo individual de comportamento e, acima de tudo, indo de encontro aos nossos instintos. E daí surge o grande mistério: de onde tais “instintos” surgem? Como saber quando segui-los? Até onde devemos nos deixar influenciar?

Junto a tal questionamento surge resposta igualmente aterradora: nunca saberemos! Se estes realmente vêm de nosso subconsciente, alguma linha de razão deve existir nestes pobres, até por que difícil seria imaginar que a mesma cabeça que traça limites de comportamento é a mesma que se disfarça em pele de cordeiro e nos faz trair a nós mesmos. Difícil? Talvez. Improvável? Jamais.

Verdadeiros ou não, corretos ou não, cabe a cada um saber quando segui-los e até onde ouvi-los. A mim deram prova total de confiança, sendo improvável a situação na qual não me ceda aos deleites de ouvi-lo, ainda que baixinho, quanto ao que fazer em cada situação. Não seria diferente a esta altura e, junto ao sentimento de vergonha, outro veio à tona com força total, não deixando lugar à qualquer outro sentimento, por mais racional que fosse, quanto à forma de agir frente à situação, meus amigos e, sobretudo, Felipe; um sentimento irracional, desproporcional, incapaz de criar qualquer outra conseqüência senão uma cadeia eterna de rancor e amargura: o sentimento de vingança.     

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Mas não, não eu [2]

"Now I'm at a place I thought I'd never be / I'm living in a world that's all about you and me..."


Depois do vexame dado e das palavras constrangedoras, Felipe saiu de lá sem nem ao menos se pronunciar sobre aquilo que há pouco havia ouvido. Da mesma forma que chegou foi embora, sem que eu percebesse... nem ao menos despediu-se, até por que àquela altura do campeonato voltar para se despedir não seria a atitude mais sensata. 

Aquele fora o primeiro arrependimento. Talvez fazer o que escândalo feito não tenha sido a melhor solução para conseguir o que eu tanto queria, mas nessas horas o coração pensa um pouco mais que o juízo, e nem todas as nossas ações passam a guiar-se pela razão, mas sim pela emoção. Perde-se o controle do razoável, e entrega-se ao domínio daquilo que não tem controle, e que acaba por te tragar para um turbilhão de emoções, do qual você não consegue sair, tampouco fazê-lo parar.
Foi aquilo que aconteceu ali, naquele momento. Medo de perder. Mas perder o quê, se nunca tive nada daquilo que queria? Devagar as coisas foram voltando ao normal, a cabeça doía menos, a rua girava mais devagar, as pessoas começaram a agir com mais discrição, enquanto observavam o bêbado caído no chão, mais uma coisa ainda me intrigava: até onde eu precisaria ir?

Até por que há muito tempo já havia ultrapassado dos meus limites, e agora me sentia derrotado por ter perdido algo que eu nunca tive, derrotado por jogar da forma que considerava mais sensata – e manipuladora – e encontrar um adversário tão “malandro” quanto eu, dotado de defesas e escapatórias que para mim não precisariam ser imaginadas, tão pouco efetivadas.

Mas era isso o que acontecia agora, e eu estava no redemoinho emocional de que tanto tentei manter distância. É bom ser um livro aberto, mas é bem melhor esconder o que realmente se sente: primeiro por não poder confiar em todos aqueles que estão plenamente dispostos a te ouvir, para não se correr o risco de ver o que você considera sigiloso correr à solta pelas bocas alheias; depois que, algumas vezes, abrir a boca e falar o que sente é entregar-se a uma vulnerabilidade que em momento algum lhe ajudará, imputando a você uma imagem manipulável e sensível demais aos olhos de pessoas que – como eu imaginava ser – queiram tirar proveito disso.

Mas aquilo já não era mais problema, afinal, o que poderia ser feito para evitar tais situações não aconteceu, e o que podia ter sido feito para piorá-la foi realizado com maestria por mim. Agora era baixar a cabeça e voltar pra casa, talvez na esperança daquilo ser esquecido em pouco tempo. Era preciso paciência, e nada mais me incomodava do que isso: paciência. Admitir o erro e reconstruir a situação. Admitir que perdi e procurar tomar outro rumo pra vida. Isso é o que se ouve, o que aconselham os amigos e o que seria o mais prudente a fazer. Mas não, não eu.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Je t´aime


Aguentei o tanto quanto pude, mas o que acontecia ali fugia do lógico e do compreensível, e passava agora a ser constrangedor e humilhante, pois cada tentativa de aproximação resultava em uma exclusão mais e mais embaraçosa, e ainda assim continuava eu em minha caçada constante àquele que me tiraria de toda aquela situação vexatória.


Procurei por alguns minutos, e ao ter certeza que Felipe não mais voltaria, tampouco me procuraria, me entreguei ao choro. Ali mesmo, jogado na grama, em frente à memorável S-69, que após aquilo certamente seria agora memorável também para mim, talvez não pelos mesmos motivos alheios, mas ainda assim memorável.

Ali sim, entreguei-me ao choro, e mais: entreguei-me à derrota. Admiti ali que havia fracassado no meu plano de vingança, e agora de uma vez por todas era preciso por cabeça no lugar e pensar no que devia ser feito, porque com habilidade e atenção tudo é mutável, e tudo pode ser encaixado à qualquer modelo de vida que se planeje levar. 

Mas não agora, afinal aquela era hora do show, e de forma alguma eu podia passar despercebido depois de toda aquela situação constrangedora. Chorei, gritei, deitei. Ali ainda continuei soluçando, enquanto gritava repetidamente o nome de Felipe, esperando que algum bom samaritano chamasse-o ao meu encontro. Dito e feito. Felipe chegou sem nem ao menos eu dar conta, e enquanto gritava por seu nome ele dava voltas e voltas, tentando entender como aquilo havia fugido do controle e até onde eu poderia continuar com aquilo...

Continuei enquanto pude, continuei enquanto minha garganta pode gritar, enquanto o soluço não tomou conta da minha voz e enquanto ainda tinha consciência pra falar o que queria e reclamar do que não podia mais ter. Reclamei a quem queria ouvir, da forma que podia me expressar, sem pensar sequer em quem estava ao meu redor, tampouco o quanto eu estava me expondo à amigos e à desconhecidos. Reclamei dos amigos, também dos desconhecidos, só depois me dando conta de quem estava ao meu redor. 

Vi Felipe em meio às minhas lágrimas, e ainda pensei que poderia ele estar ali por simples educação. Devagar o choro foi parando. Devagar Felipe foi se aproximando. Devagar meus lábios se mexeram e algumas poucas palavras saíram: - Eu te amo, cara...

domingo, 25 de março de 2012

Da Vodka à boate, da boate ao choro...


A diversão ainda continuou noite adentro. Inclusive para mim, que continuava sorrindo aos quatro cantos, fingindo não ter sido abalado por aquilo que meus ouvidos escutaram há pouco tempo atrás, escondendo, na verdade, todo o ódio que me consumia e todo planejamento que aquela altura já encontrava-se detalhadamente traçado em minha cabeça. Ainda assim, me entreguei à bebida como todos aqueles que ali estavam...

Vodka! Das mais baratas possíveis, com o pior gosto imaginável para uma bebida que, segundo a televisão, era chique e de bom gosto. Mas nem isso teria a capacidade de me limitar: misturei com Coca, Sprite, Guaraná Antarctica e qualquer outra bebida que qualquer uma das pessoas ali me indicasse. O gosto continuava ruim, mas a impressão passada estava impecável, e esse era o objetivo naquele momento.

Da Vodka ao Martini foi um passo. Talvez alguns passos, por que a capacidade lógica já não fluía da mesma forma do Ensino Médio. Da Vodka ao Martini, e do Martini à boate gay... O convite partiu de Felipe, que admitiu comparecer fielmente à boate em questão. Minha cidade não é extamente o padrão de capital que todos tem na cabeça. Não ando em cima de elefantes, não adestro animais silvestres, tampouco ando trepado em cipós... mas, apesar de não gostar do esterótipo dado à nossa capital, não posso negar que a diversão aqui não é das melhores: uma boate "hetero", uma "gay" e alguns bares de origem questionável.

Apesar de não mais coseguir contar com exatidão, estava perfeitamente certo na direção do carro. Felipe foi jogado para outro dos carros que nos acompanhavam, talvez na esperança daquela beleza excomunal não chamar minha atenção, que já não era muita após toda aquela mistura de álcool e refrigerantes. Durante o caminho até a boate, Macela percebeu, por trás daquele escudo de alegria, uma pontinha de infelicidade e inquietação com algo que ela ainda não sabia o que era. Perguntou da forma que pode, com a discrição que pode, talvez por ter percebido algo, tentando ainda não deixar claro pra mim que aquilo que eu tanto lutei para esonder já estava visível a todos há muito tempo.

A chegada à boate deu-se mais rápido que o esperado. Logo de cara percebi que ali não seria o tipo de lugar que me veria muitas vezes, e ainda dentro do carro expressei minha incorfomação de estar ali, apesar de saber que, bem no fundo, aquele ambiente me dava uma sensação de segurança que nem eu mesmo conseguia compreender.

Estacionamos a alguns metros da entrada da boate, e ainda na calçada do outro lado da rua começamos a beber. Ou voltamos a beber, por que todo aquele percurso foi apenas uma interrupção da 'diversão' da bebedeira. Um dos meninos que nos acompanhavam surgiu com a surpresa que nos prometia desde o começo da noite, ainda na praça: uma garrafa de tequila! Sem copos... afinal, pra quê copos? Estávamos completamente dominados pela sensação de diversão da bebida, e o que menos nos preocupava naquele momento eram lições de etiqueta.

Mônica apareceu de surpresa à minha frente, e não pensei duas vezes em agarrá-la e forçar um beijo que ainda hoje tento explicar e, pior, entender. Não havia motivos, tampouco explicações para o que havia acontecido, ou simplesmente eu não queira admitir que o fora tomado há algumas horas me encheu de um rancor que nem ao menos me deu a chance de pensar no que eu estava fazendo; afinal, beijar uma menina, ainda por cima minha amiga, não era exatamente o que eu faria se quisesse irritar Felipe, mas a bebida tomou as rédeas do meu raciocínio e também do meu bom senso.

Daí ao excesso sentimental foi apenas um pulo, pois apesar de esconder, de qualquer forma, o ódio que me corrompia, a bebida o liberou desenfreadamente. Maldita bebida, e mais ainda: maldito eu, que a pus pra dentro, talvez imaginando que aquilo o faria sentir pena e cuidar de mim, ou até mesmo imaginando que beber me faria mais descolado - e quem não quer um cara descolado?

Erro meu, claro, mas um erro completamente compreensível, não fosse pela cena presenciada por todos que estavam ali: saí, pessoa a pessoa, soltando minha lamúrias e lamentações sobre o ocorrido, implorando por um pingo de companheirismoo, na expectativa de que alguém sentisse minhas angústias e fosse até Felipe, astutamente o convencendo que não havia outra escapatória senão meus braços. Não precisou de muitos minutos para que o pedido embaraçoso chegasse aos ouvidos de Felipe, e menos minutos ainda este levou para sumir de onde nós estávamos e adentrar na boate, escondendo-se na penumbra recheada de mãos e bocas...

Da Vodka à boate, da boate ao choro...

sábado, 17 de março de 2012

Politicamente correto

Realmente, aquela não era uma atitude que poderia ser imputada a alguém com o meu comportamento. Muito pelo contrário, já que eu nunca fui o tipo de pessoa que é passada para trás, muito menos daquelas que se machuca por qualquer besteira... 

Não me acho irresistível, e hoje já não me interesso em agradar a todos que me rodeiam... Já me dei conta também que metade daqueles que me rodeiam talvez não gostem tanto de mim quanto aparentam, e isso já não me preocupa mais tanto quanto antes, quando a minha maturidade ainda não sabia o que era existência.



Mais aí é que mora o grande problema: opiniões deveriam ser pessoais, e como pessoais deveriam pertencer somente àqueles que as detenham. Pouco me preocupou o fato de Felipe não se impressionar com a minha aparência, e esse comportamento inclusive já era o esperado. O motivo da minha indignação residia no simples fato daquela justificativa ter servido de motivo humorístico para as gargalhadas que ambos soltavam, como se imaginassem que tudo aquilo de que agora eles riam só aumentava em mim a vontade de fazer o mundo dar a volta um pouco mais depressa. Vingança é um prato que se come frio, mas uma sopradinha de leve não tem problema nenhum...



Como já era previsível, a noite acabou ali pra mim... mas somente pra mim. Apesar de estar extremamente irritado com o rumo que as coisas haviam tomado, não havia no mundo pessoa mais sorridente que eu. A alegria emanava do meu rosto de uma forma que nem eu mesmo poderia acreditar ser possível, enquanto na minha cabeça milhões de planos mirabolantes passavam por um casting, em busca do plano perfeito para reverter aquela situação e ficar em paz com meu orgulho.



Orgulho não, porque parece que o mundo considera o orgulho um defeito gravíssimo. Sim, o orgulho mesmo, aquele que nos priva de situações constrangedoras e que nos impede de nos destruir e nos rebaixar por qualquer besteira que nem ao menos vale a pena. O orgulho que nos traz uma sensação de melhoria interna, de evolução consigo mesmo. Mas parece que isso não é o que o resto do mundo quer, já que esse mesmo orgulho que eu jamais faria questão de deixar de lado machuca e ofende a todas as outras pessoas. Então façamos como o resto do mundo: vamos encobrir o óbvio...


Já não quero ficar em paz com meu orgulho, mas “tenho amor próprio”. Brega!?! Não... politicamente correto.

sábado, 10 de março de 2012

Mas não, não eu

"I like to think that I was created /For a special purpose / You know? "


Não demorou muito para que a minha intimidade com André começasse a surtir efeitos, em sua grande maioria desagradáveis. André é o tipo de pessoa em quem você não pode confiar, fazendo parte daquele grupo de pessoas que se tornam insuportáveis depois de um tempo: pessoas que impõem-se aos outros como se fossem mais importantes, pessoas que dão a você uma falsa ilusão de confiança, para que na primeira oportunidade possam apontar-lhe o dedo e mostrar como elas teriam agido...

Em um misto de fúria e surpresa pelo qual estou passando agora, simplesmente iria dizer que não poderia culpá-lo, já que a sua personalidade de se enaltecer à custa das desgraças dos outros seria digna de pena, e seu comportamento seria apenas um mecanismo de escape de uma vida rebaixada e desvalorizada.

Mas não, não eu. Deixar para trás meu orgulho e minhas convicções sem medir as conseqüências já fora um grande erro, e tentar culpar os outros pelas conseqüências inesperadas seria, talvez, um erro maior. Agora era hora de encarar o problema, e tentar de todas as formas driblar os obstáculos que se impunham a minha frente, e que agora estavam maiores do que jamais os imaginei.

Difícil entender este meu desabafo? Não, não mesmo. Difícil seria não compreendê-lo, e mais difícil ainda seria dar razão a André... Difícil não, ouso dizer impossível, uma tarefa hercúlea, que nem o mais bravo dos homens teria a capacidade de realizar, por um simples e único motivo:

André realmente foi falar com Felipe, e realmente lhe perguntou tudo que lhe foi pedido por mim. Entretanto, as coisas não soaram exatamente da mesma forma que eu esperava ouvi-las, ou melhor, foram extremamente contrárias a todo que eu havia planejado... Embora tenham tentado afastar-se do grupo, não foi tarefa muito difícil aproximar-me e ouvir o conteúdo da conversa. Pudera eu não ter ouvido o que foi dito, e simplesmente tocar a vida em frente, de bem com todos e com a suposta idéia de conquistar Felipe.

Mas não, não eu. Eu fiz o possível e o impossível para escutar o que foi dito, e do fundo das árvores pude ver os lábios de Felipe mexerem-se, e mais fácil ainda foi compreender o que saía deles, até porque daquela distância até mesmo um sussurro poderia ser ouvido. O que foi dito foi doloroso, mas ao mesmo tempo curioso: “Claro que não, André, nem em sonho eu quero alguma coisa com aquele negócio”.

É, não soou muito bem aos meus ouvidos também. Muito pelo contrário: aquilo soou como uma apunhalada nas costas, não por Felipe, que culpa alguma tinha de minhas expectativas, mas pura e simplesmente uma apunhalada dada por mim mesmo, abrindo mão de meus princípios e dando aos outros a oportunidade de me ferir.

Realmente... a traição contra nós mesmos é a pior de todas, pois percebemos o quanto nos colocamos vulneráveis frente ao mundo, e ainda assim continuamos dispostos a correr riscos e nos apunhalar, sem nem ao menos questionar se o real motivo de tudo valeria tanto a pena quanto imaginávamos.

Porque a raiva de André? Pois bem, agora vem o mais surpreendente: a mim André pediu que continuasse com a tentativa insistente de conquistar Felipe, apesar de tudo que ouviu de Felipe. Pior ainda era ouvir o que era falado, ao mesmo tempo que lembrava as gargalhadas que a palavra "negócio" havia causado entre os dois, enquanto André perguntava quanto alguém podia ser idiota a ponto de achar que podia algo com algum deles.

Agora resta a mim o que sempre resta a todos: culpar-se pelo acontecido e tentar entender o que precisava ser feito para mudar rumo das coisas, ou então simplesmente sair por aí contando o que aconteceu, dizendo ter aprendido muito com o que aconteceu, além de ter percebido o quão aquilo era insignificante, o quão aquilo era desnecessário à minha vida.

Compreensível, para não dizer hilário e deplorável... Mas enfim, pelo menos que eu saia por cima, saia como se tudo tivesse saído conforme o planejado, e que agora bastava tocar pra frente e encarar aquilo como a confirmação de algo que eu já sabia. Simples, afinal era isso que todo mundo fazia...

Mas não, não eu.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Dito e feito

“A pior traição é a de princípios, porque é cometida por nós, contra nós mesmos.”
Marcelo Soriano


Já haviam passado alguns dias desde o imprevisto na pizzaria, e eu mais uma vez tinha me enfurnado em casa, agora não mais para me esconder de todos, mas apenas daquela nova fase que insistia em me tocar... Esquisito entender porque aquilo, naquele momento, mas pior ainda era a vontade de vê-lo naquele instante, ou de alguma forma encontrá-lo, o mais rápido possível.

Talvez essa seja uma característica singular deste autor, mas quando alguém lhe chama atenção a ponto de lhe tirar a discrição e o bom senso é um pouco complicado imaginar-se saindo sem ela por perto. Não há como negar que as saídas no meio da noite, regadas a muito chope, já não tinham a mesma graça, pois minha cabeça já rodava por outros lugares, e para um homem é meio difícil pensar com a razão, ou com a “cabeça certa”.

Não tardou até que minha amiga me ligasse novamente para combinarmos uma nova saída... Obviamente me fiz de difícil no início, talvez tentando esconder o meu interesse, mas a resistência não durou muito, pois uma oportunidade como aquela não podia ser desperdiçada por uma besteira como meu orgulho, embora isso fosse difícil de aceitar.

Algumas horas depois estava dentro do meu carro, me dirigindo pra uma pracinha qualquer onde nós, os “descolados”, costumávamos ir beber. Marcela ia entusiasmada como sempre, não vendo a hora de chegar, enquanto André e Felipe procuravam entender a graça de “beber na praça”, mas ao mesmo tempo demonstrando certa receptividade à idéia.

Bastaram algumas horas para que as bebidas começassem a surtir efeito na minha cabeça, me deixando um pouco mais liberal e um pouco mais à vontade para tomar algumas atitudes que talvez me rendessem um arrependimento posterior... Dito e feito: não escondi de André meu interesse; pelo contrário, ele agora sabia de todas as minhas pretensões com Felipe e o motivo que me levava até ali, pois agora eu estava depositando em mãos alheias o meu possível futuro, deixando a ele possíveis argumentações para convencer Felipe a fazer o que eu queria.

Devagar eu entendo cada segundo da minha vida: sou maquiavélico, não no sentido ruim da palavra, mas no sentido de planejar como as coisas irão acontecer, e o que é preciso fazer para que as coisas saiam como eu espero, fazendo com que elas pareçam as mais naturais possíveis. É muito difícil para alguém como eu aceitar que as coisas possam depender de qualquer outro fator que não a minha vontade...

E agora ali estava eu, abrindo mão de um princípio que para mim fazia parte fundamental do que eu sou, que me distinguia dos demais e fazia sentir-me cada vez mais valorizado frente aos outros. Egoísmo da minha parte achar que o mundo gira em torno do meu umbigo, mas ainda não era a hora de deixar um princípio tão relevante como aquele de lado, ainda mais para algo tão impensado como aquilo...

Mas, ainda assim, ali estava eu, nas mãos de um qualquer que eu nem ao menos conhecia, sem certeza do que poderia acontecer, mas na esperança de que valesse a pena deixar de lado algo tão importante. Ingenuidade minha entregar-me ao bel-prazer de alguém que nem ao menos se importa com você, arriscando-me a pior das traições... Dito e feito.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

- Não, obrigado. Não vou ficar...

"I need you, I need you so stay with me / These precious hours / Greet each dawn in open arms / And dream, into tomorrow"



Cheguei à pizzaria por volta de 11 horas da noite, já com um pouco de fome, apesar de ter certeza que já não era aquilo que me levara até ali. Pedimos um sabor qualquer de pizza e começamos a conversar sobre a vida de cada um, numa experiência meio impossível de nos entrosar.

Felipe mantinha-se calado, analisando tudo que era falado, talvez na tentativa de entender o que acontecia na mesa, enquanto André tentava de toda forma descobrir o que eu escondia, em meio a perguntas cabeludas e de duplo sentido. Consegui me sair bem de muitas delas, mas era inegável o fato de que outras me deixaram constrangido o suficiente para deixá-lo em dúvida quanto à veracidade de tudo que eu buscava afirmar.

Beeeep... Beeeep... Aquele barulho insuportável já começava a me irritar, principalmente por ser aquele barulho o motivo que tirava a atenção de Felipe de nossa conversa para aquele celular inquieto. As mensagens não paravam de chegar, e junto a elas somava-se o silêncio que Felipe fazia questão de manter...

- Vai querer alguma coisa pra beber agora, Felipe?

- Não, obrigado. Não vou ficar...

Agora sim as mensagens haviam me irritado de uma forma incompreensível. Como alguém pudera ter a ousadia de ligá-lo e, pior, tirá-lo de lá? O fato de conhecê-lo, teoricamente, há apenas um dia, não queria dizer que ele poderia simplesmente se levantar e sair dali, sem nem ao menos dizer para onde estava indo, e principalmente com quem estava indo, afinal, ele já era meu... apenas ainda não sabia.

Levou pouco menos de meia hora para que o Corolla preto parasse do outro lado da rua, um pouco depois do lugar onde estávamos. Felipe pediu licença e foi até o carro conversar com ele. Pouco tempo depois voltou, enquanto o Corolla se afastava lentamente... achava eu. Após uma breve despedida, Felipe dirigiu-se até o carro, que àquela altura já havia dado a volta e o esperava um pouco mais à frente.

Não demoramos muito para terminar o jantar e então resolvemos dar uma volta pela praça do centro da cidade. Para mim já não importava muito para onde estávamos indo ou o que iríamos fazer, afinal meu maior interesse já não tinha nem idéia de onde estávamos e, pelo visto, nem gostaria de saber.

Interessante ver como as coisas mudavam. Há poucas horas eu estava sem ninguém, preocupado demais com o que as pessoas pensavam sobre mim e o que era preciso fazer para que eu agradasse a todos. E pensar que peguei meu carro e permiti que duas pessoas desconhecidas o adentrassem, ou melhor, adentrassem minha vida... E agora eu tinha um novo motivo pra seguir em frente.

[...]

Interessante ver como as coisas não mudavam. Há poucas horas eu me preocupava com a opinião de um desconhecido, personificado por qualquer um que me olhasse e tentasse me compreender. As coisas realmente não haviam mudado, apenas meu desconhecido agora já tinha um nome: Felipe.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Destino

“[...] Mas talvez esse fosse o maior segredo de todos, aquilo que resultou em uma grande confusão amorosa: embora não me conhecesse, Felipe não era um desconhecido pra mim.”



Era difícil acreditar que alguém pudesse se interessar tão rapidamente por um desconhecido qualquer, mas pior ainda era acreditar que, de uma hora pra outra, a vida estava te pregando uma daquelas peças que você jamais acreditou poder viver.

Não... Não foi a primeira vez que vi Felipe. Não foi a primeira vez que perdi a noção de comportamento para adorar cada detalhe do seu corpo. Também não foi a primeira vez que me impressionei com a naturalidade com que Felipe lidava com aquele tipo de assédio: normalmente, como se toda aquela indiscrição não passasse de uma conversa, como essas que rolam entre amigos nos barzinhos, intercaladas por gargalhadas e algumas cervejas...

Pudera eu poder conversar da forma que meu corpo desejava, podendo trocar com ele palavras dos meus mais profundos desejos e anseios com relação ao que eu sentia. Pudera eu sentar-me ao seu lado para gargalhar das mais ínfimas situações, terminando por aproveitar cada instante da nossa “conversa”.

Felipe realmente não era tão desconhecido pra mim... mas imaginava tê-lo esquecido. Era começo de 2009 quando o vi passar em uma de minhas idas ao centro. Como era de se esperar, chamou minha atenção e tudo que eu pude fazer foi segui-lo com meus olhos e entender como era possível sentir algo tão diferente do que comumente sentia por, digamos... meninos.

Não tive coragem pra segui-lo, ou até mesmo tentar ser um pouco mais incisivo e pedir seu telefone, mas ainda nos vimos mais algumas vezes pela cidade, incluindo a noite em que o vi em frente a uma boate gay, ocasião em que o acompanhei até em casa, mais por curiosidade de saber onde morava do que por preocupação.

Mas talvez isso seja o bom da vida: quando você resolve pelo novo, o antigo teima em reaparecer e te perseguir. Quem sabe o melhor não teria sido ir embora, por conta de alguma desculpa esfarrapada inventada naquele instante, e tentar ao máximo evitar um possível reencontro com ele.

Mas não, esse não seria eu. E esse não seria o meu mundo de sonhos, onde aparentemente tudo acontece por mim e para mim. Porque no meu mundo isso não é perseguição, muito menos o meu “antigo” que vem me assombrar e me fazer repensar as novas escolhas... No meu mundo isso é algo mais bonito, é aquilo que todos esperam para dar sentido às suas vidas e fazê-los entender o porquê de tudo. No meu mundo isso é... DESTINO.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Indiscrição

"I think I'm ready / been locked up in the house /way too long ...It's time to get it"



Saí um pouco mais cedo do Congresso – tudo bem, 2 horas mais cedo – e me dirigi até a escola para pegá-los. Não demorou muito até que ela chegasse ao carro e me avisasse para esperar pelos outros dois, que ainda demorariam um pouco a desocuparem-se de suas aulas. Conversamos um pouco sobre os acontecimentos do último final de semana, e antes que pudéssemos avançar com os comentários semana adentro fomos surpreendidos pelos dois, que entraram no carro às gargalhadas, provavelmente pelo deboche de um deles sobre alguém que passava pela rua.

Primeiramente conheci André: 19 anos, moreno, baixo, um corpo normal e que provavelmente não chamaria muita atenção meio a uma multidão... Bastou abrir a boca para que entregasse sua “feminilidade”: uma voz excessivamente gay e um papo absolutamente monossilábico, tentando ser discreto e ao mesmo tempo simpático – tentativa meio infrutífera, diga-se de passagem.

Eu realmente pensei que meu plano iria por algo abaixo se meu próximo “amigo” seguisse o perfil do primeiro. Foram alguns segundos assustadores até a entrada de Felipe: 19 anos, branco, cabelos loiros, olhos claros, mais baixo que o primeiro, suficientemente mais interessante para que meu retrovisor fosse realinhado em sua direção.


Resolvemos passar antes na casa de uma amiga e convidá-la a nos acompanhar. Marcela era uma espécie de irmã pra mim, a quem eu contava boa parte dos meus segredos... boa parte, afinal algumas coisas ainda eram um pouco agressiva pros seus ouvidos. Ficamos esperando por alguns minutos, que pra mim pareceram poucos pra admirar quem estava na minha frente.

Visivelmente constrangido, ele ainda fingia não perceber que meus olhos percorriam seu corpo, enquanto eu tentava entender como alguém com seu perfil havia chamado minha atenção. Toda tentativa de distração era inútil, já que não era mais possível controlar uma demonstração de interesse como aquela.

Talvez ele deva ter se perguntado como alguém poderia ter ficado impressionado tão rápido com alguém que ainda não conhecia. Mas talvez esse fosse o maior segredo de todos, aquilo que resultou em uma grande confusão amorosa: embora não me conhecesse, Felipe não era tão desconhecido pra mim.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Uma luz no fim do túnel

"At least my love has come along / My lonely days are over / And life is like a song"



O dia havia sido chato como todos os outros... o Congresso da faculdade me desgastava muito e me deixava cada vez mais em dúvida se Direito realmente seria uma boa opção. Entrar na faculdade aos 17 anos nos traz uma ideia de maturidade que jamais se torna realidade. A escolha aleatória do curso a fazer nos faz pensar até onde nos deixamos manipular pela vontade alheia ou por pretensões financeiras, embora aquela altura do campeonato nem sequer passava pela minha cabeça desistir da faculdade que agora tomava meu tempo. A vida também não corria da melhor forma: perder a namorada pra alguém pior que você não era exatamente o meu ideal de término de relacionamento, e realmente era mais do que chegada a hora de dar um pontapé na minha vida antiga e tocar pra frente uma vida nova, com novos objetivos e sem pensar muito em se adequar ao que é padrão para todos.

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Recebi o convite para uma pizza logo após sentar pra mais uma noite de “intensos debates jurídicos”, e não pensei duas vezes em aceitá-lo, já que eu estava extremamente estressado pelo que acontecia ao meu redor, e mais ainda pela inércia de todos à chatice diante dos nossos olhos. Logicamente que, para quem me conhece, essa é uma desculpa das mais simplórias possíveis, pois o principal motivo do aceite para aquela pizza era, na verdade, dois... Dois amigos que iriam acompanhar minha amiga durante nosso divertidíssimo encontro gastronômico, e fazer novas amizades era um ponto crucial para o meu novo projeto de vida.

Já saí bem mais feliz do que entrei no Congresso, e enquanto ouvia Beyoncé no carro tentava de toda forma me apressar e ao mesmo tempo arrumar uma forma de aparentar um look agradável e ao mesmo tempo descolado, tentativa esta totalmente perdida, pois confesso que não estava exatamente bem vestido pra intensidade daquele evento recém-combinado: calça jeans, uma camisa social de um pano mega brega e um cabelo “Elza Soares” compunham meu visual deslumbrante daquela noite.

Enfim, valia a intenção, e naquela altura do campeonato a roupa já não era mais empecilho pra alguém que, pela primeira vez, se sentia a pessoa mais solitária do mundo... Sim, pela minha vida inteira nunca tive problemas com nenhum tipo de lugar ou pessoa, precisando de um mínimo de tempo para me adequar ao lugar onde eu estava e às pessoas que me rodeavam. Mas agora era diferente, e minha cabeça tinha necessidades além do meu entendimento, que nem eu mesmo pude compreender naquele momento, mal sabendo que em pouco tempo aquilo tudo pareceria mais fácil de entender. Mas aquele momento era agoniante, e a simples ideia de ficar sozinho já era aterrorizante por si só... Ali estava a minha oportunidade, a minha luz no fim do túnel.