A diversão ainda continuou noite adentro. Inclusive para mim, que continuava sorrindo aos quatro cantos, fingindo não ter sido abalado por aquilo que meus ouvidos escutaram há pouco tempo atrás, escondendo, na verdade, todo o ódio que me consumia e todo planejamento que aquela altura já encontrava-se detalhadamente traçado em minha cabeça. Ainda assim, me entreguei à bebida como todos aqueles que ali estavam...
Vodka! Das mais baratas possíveis, com o pior gosto imaginável para uma bebida que, segundo a televisão, era chique e de bom gosto. Mas nem isso teria a capacidade de me limitar: misturei com Coca, Sprite, Guaraná Antarctica e qualquer outra bebida que qualquer uma das pessoas ali me indicasse. O gosto continuava ruim, mas a impressão passada estava impecável, e esse era o objetivo naquele momento.
Da Vodka ao Martini foi um passo. Talvez alguns passos, por que a capacidade lógica já não fluía da mesma forma do Ensino Médio. Da Vodka ao Martini, e do Martini à boate gay... O convite partiu de Felipe, que admitiu comparecer fielmente à boate em questão. Minha cidade não é extamente o padrão de capital que todos tem na cabeça. Não ando em cima de elefantes, não adestro animais silvestres, tampouco ando trepado em cipós... mas, apesar de não gostar do esterótipo dado à nossa capital, não posso negar que a diversão aqui não é das melhores: uma boate "hetero", uma "gay" e alguns bares de origem questionável.
Apesar de não mais coseguir contar com exatidão, estava perfeitamente certo na direção do carro. Felipe foi jogado para outro dos carros que nos acompanhavam, talvez na esperança daquela beleza excomunal não chamar minha atenção, que já não era muita após toda aquela mistura de álcool e refrigerantes. Durante o caminho até a boate, Macela percebeu, por trás daquele escudo de alegria, uma pontinha de infelicidade e inquietação com algo que ela ainda não sabia o que era. Perguntou da forma que pode, com a discrição que pode, talvez por ter percebido algo, tentando ainda não deixar claro pra mim que aquilo que eu tanto lutei para esonder já estava visível a todos há muito tempo.
A chegada à boate deu-se mais rápido que o esperado. Logo de cara percebi que ali não seria o tipo de lugar que me veria muitas vezes, e ainda dentro do carro expressei minha incorfomação de estar ali, apesar de saber que, bem no fundo, aquele ambiente me dava uma sensação de segurança que nem eu mesmo conseguia compreender.
Estacionamos a alguns metros da entrada da boate, e ainda na calçada do outro lado da rua começamos a beber. Ou voltamos a beber, por que todo aquele percurso foi apenas uma interrupção da 'diversão' da bebedeira. Um dos meninos que nos acompanhavam surgiu com a surpresa que nos prometia desde o começo da noite, ainda na praça: uma garrafa de tequila! Sem copos... afinal, pra quê copos? Estávamos completamente dominados pela sensação de diversão da bebida, e o que menos nos preocupava naquele momento eram lições de etiqueta.
Mônica apareceu de surpresa à minha frente, e não pensei duas vezes em agarrá-la e forçar um beijo que ainda hoje tento explicar e, pior, entender. Não havia motivos, tampouco explicações para o que havia acontecido, ou simplesmente eu não queira admitir que o fora tomado há algumas horas me encheu de um rancor que nem ao menos me deu a chance de pensar no que eu estava fazendo; afinal, beijar uma menina, ainda por cima minha amiga, não era exatamente o que eu faria se quisesse irritar Felipe, mas a bebida tomou as rédeas do meu raciocínio e também do meu bom senso.
Daí ao excesso sentimental foi apenas um pulo, pois apesar de esconder, de qualquer forma, o ódio que me corrompia, a bebida o liberou desenfreadamente. Maldita bebida, e mais ainda: maldito eu, que a pus pra dentro, talvez imaginando que aquilo o faria sentir pena e cuidar de mim, ou até mesmo imaginando que beber me faria mais descolado - e quem não quer um cara descolado?
Erro meu, claro, mas um erro completamente compreensível, não fosse pela cena presenciada por todos que estavam ali: saí, pessoa a pessoa, soltando minha lamúrias e lamentações sobre o ocorrido, implorando por um pingo de companheirismoo, na expectativa de que alguém sentisse minhas angústias e fosse até Felipe, astutamente o convencendo que não havia outra escapatória senão meus braços. Não precisou de muitos minutos para que o pedido embaraçoso chegasse aos ouvidos de Felipe, e menos minutos ainda este levou para sumir de onde nós estávamos e adentrar na boate, escondendo-se na penumbra recheada de mãos e bocas...
Da Vodka à boate, da boate ao choro...