segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Dito e feito

“A pior traição é a de princípios, porque é cometida por nós, contra nós mesmos.”
Marcelo Soriano


Já haviam passado alguns dias desde o imprevisto na pizzaria, e eu mais uma vez tinha me enfurnado em casa, agora não mais para me esconder de todos, mas apenas daquela nova fase que insistia em me tocar... Esquisito entender porque aquilo, naquele momento, mas pior ainda era a vontade de vê-lo naquele instante, ou de alguma forma encontrá-lo, o mais rápido possível.

Talvez essa seja uma característica singular deste autor, mas quando alguém lhe chama atenção a ponto de lhe tirar a discrição e o bom senso é um pouco complicado imaginar-se saindo sem ela por perto. Não há como negar que as saídas no meio da noite, regadas a muito chope, já não tinham a mesma graça, pois minha cabeça já rodava por outros lugares, e para um homem é meio difícil pensar com a razão, ou com a “cabeça certa”.

Não tardou até que minha amiga me ligasse novamente para combinarmos uma nova saída... Obviamente me fiz de difícil no início, talvez tentando esconder o meu interesse, mas a resistência não durou muito, pois uma oportunidade como aquela não podia ser desperdiçada por uma besteira como meu orgulho, embora isso fosse difícil de aceitar.

Algumas horas depois estava dentro do meu carro, me dirigindo pra uma pracinha qualquer onde nós, os “descolados”, costumávamos ir beber. Marcela ia entusiasmada como sempre, não vendo a hora de chegar, enquanto André e Felipe procuravam entender a graça de “beber na praça”, mas ao mesmo tempo demonstrando certa receptividade à idéia.

Bastaram algumas horas para que as bebidas começassem a surtir efeito na minha cabeça, me deixando um pouco mais liberal e um pouco mais à vontade para tomar algumas atitudes que talvez me rendessem um arrependimento posterior... Dito e feito: não escondi de André meu interesse; pelo contrário, ele agora sabia de todas as minhas pretensões com Felipe e o motivo que me levava até ali, pois agora eu estava depositando em mãos alheias o meu possível futuro, deixando a ele possíveis argumentações para convencer Felipe a fazer o que eu queria.

Devagar eu entendo cada segundo da minha vida: sou maquiavélico, não no sentido ruim da palavra, mas no sentido de planejar como as coisas irão acontecer, e o que é preciso fazer para que as coisas saiam como eu espero, fazendo com que elas pareçam as mais naturais possíveis. É muito difícil para alguém como eu aceitar que as coisas possam depender de qualquer outro fator que não a minha vontade...

E agora ali estava eu, abrindo mão de um princípio que para mim fazia parte fundamental do que eu sou, que me distinguia dos demais e fazia sentir-me cada vez mais valorizado frente aos outros. Egoísmo da minha parte achar que o mundo gira em torno do meu umbigo, mas ainda não era a hora de deixar um princípio tão relevante como aquele de lado, ainda mais para algo tão impensado como aquilo...

Mas, ainda assim, ali estava eu, nas mãos de um qualquer que eu nem ao menos conhecia, sem certeza do que poderia acontecer, mas na esperança de que valesse a pena deixar de lado algo tão importante. Ingenuidade minha entregar-me ao bel-prazer de alguém que nem ao menos se importa com você, arriscando-me a pior das traições... Dito e feito.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

- Não, obrigado. Não vou ficar...

"I need you, I need you so stay with me / These precious hours / Greet each dawn in open arms / And dream, into tomorrow"



Cheguei à pizzaria por volta de 11 horas da noite, já com um pouco de fome, apesar de ter certeza que já não era aquilo que me levara até ali. Pedimos um sabor qualquer de pizza e começamos a conversar sobre a vida de cada um, numa experiência meio impossível de nos entrosar.

Felipe mantinha-se calado, analisando tudo que era falado, talvez na tentativa de entender o que acontecia na mesa, enquanto André tentava de toda forma descobrir o que eu escondia, em meio a perguntas cabeludas e de duplo sentido. Consegui me sair bem de muitas delas, mas era inegável o fato de que outras me deixaram constrangido o suficiente para deixá-lo em dúvida quanto à veracidade de tudo que eu buscava afirmar.

Beeeep... Beeeep... Aquele barulho insuportável já começava a me irritar, principalmente por ser aquele barulho o motivo que tirava a atenção de Felipe de nossa conversa para aquele celular inquieto. As mensagens não paravam de chegar, e junto a elas somava-se o silêncio que Felipe fazia questão de manter...

- Vai querer alguma coisa pra beber agora, Felipe?

- Não, obrigado. Não vou ficar...

Agora sim as mensagens haviam me irritado de uma forma incompreensível. Como alguém pudera ter a ousadia de ligá-lo e, pior, tirá-lo de lá? O fato de conhecê-lo, teoricamente, há apenas um dia, não queria dizer que ele poderia simplesmente se levantar e sair dali, sem nem ao menos dizer para onde estava indo, e principalmente com quem estava indo, afinal, ele já era meu... apenas ainda não sabia.

Levou pouco menos de meia hora para que o Corolla preto parasse do outro lado da rua, um pouco depois do lugar onde estávamos. Felipe pediu licença e foi até o carro conversar com ele. Pouco tempo depois voltou, enquanto o Corolla se afastava lentamente... achava eu. Após uma breve despedida, Felipe dirigiu-se até o carro, que àquela altura já havia dado a volta e o esperava um pouco mais à frente.

Não demoramos muito para terminar o jantar e então resolvemos dar uma volta pela praça do centro da cidade. Para mim já não importava muito para onde estávamos indo ou o que iríamos fazer, afinal meu maior interesse já não tinha nem idéia de onde estávamos e, pelo visto, nem gostaria de saber.

Interessante ver como as coisas mudavam. Há poucas horas eu estava sem ninguém, preocupado demais com o que as pessoas pensavam sobre mim e o que era preciso fazer para que eu agradasse a todos. E pensar que peguei meu carro e permiti que duas pessoas desconhecidas o adentrassem, ou melhor, adentrassem minha vida... E agora eu tinha um novo motivo pra seguir em frente.

[...]

Interessante ver como as coisas não mudavam. Há poucas horas eu me preocupava com a opinião de um desconhecido, personificado por qualquer um que me olhasse e tentasse me compreender. As coisas realmente não haviam mudado, apenas meu desconhecido agora já tinha um nome: Felipe.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Destino

“[...] Mas talvez esse fosse o maior segredo de todos, aquilo que resultou em uma grande confusão amorosa: embora não me conhecesse, Felipe não era um desconhecido pra mim.”



Era difícil acreditar que alguém pudesse se interessar tão rapidamente por um desconhecido qualquer, mas pior ainda era acreditar que, de uma hora pra outra, a vida estava te pregando uma daquelas peças que você jamais acreditou poder viver.

Não... Não foi a primeira vez que vi Felipe. Não foi a primeira vez que perdi a noção de comportamento para adorar cada detalhe do seu corpo. Também não foi a primeira vez que me impressionei com a naturalidade com que Felipe lidava com aquele tipo de assédio: normalmente, como se toda aquela indiscrição não passasse de uma conversa, como essas que rolam entre amigos nos barzinhos, intercaladas por gargalhadas e algumas cervejas...

Pudera eu poder conversar da forma que meu corpo desejava, podendo trocar com ele palavras dos meus mais profundos desejos e anseios com relação ao que eu sentia. Pudera eu sentar-me ao seu lado para gargalhar das mais ínfimas situações, terminando por aproveitar cada instante da nossa “conversa”.

Felipe realmente não era tão desconhecido pra mim... mas imaginava tê-lo esquecido. Era começo de 2009 quando o vi passar em uma de minhas idas ao centro. Como era de se esperar, chamou minha atenção e tudo que eu pude fazer foi segui-lo com meus olhos e entender como era possível sentir algo tão diferente do que comumente sentia por, digamos... meninos.

Não tive coragem pra segui-lo, ou até mesmo tentar ser um pouco mais incisivo e pedir seu telefone, mas ainda nos vimos mais algumas vezes pela cidade, incluindo a noite em que o vi em frente a uma boate gay, ocasião em que o acompanhei até em casa, mais por curiosidade de saber onde morava do que por preocupação.

Mas talvez isso seja o bom da vida: quando você resolve pelo novo, o antigo teima em reaparecer e te perseguir. Quem sabe o melhor não teria sido ir embora, por conta de alguma desculpa esfarrapada inventada naquele instante, e tentar ao máximo evitar um possível reencontro com ele.

Mas não, esse não seria eu. E esse não seria o meu mundo de sonhos, onde aparentemente tudo acontece por mim e para mim. Porque no meu mundo isso não é perseguição, muito menos o meu “antigo” que vem me assombrar e me fazer repensar as novas escolhas... No meu mundo isso é algo mais bonito, é aquilo que todos esperam para dar sentido às suas vidas e fazê-los entender o porquê de tudo. No meu mundo isso é... DESTINO.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Indiscrição

"I think I'm ready / been locked up in the house /way too long ...It's time to get it"



Saí um pouco mais cedo do Congresso – tudo bem, 2 horas mais cedo – e me dirigi até a escola para pegá-los. Não demorou muito até que ela chegasse ao carro e me avisasse para esperar pelos outros dois, que ainda demorariam um pouco a desocuparem-se de suas aulas. Conversamos um pouco sobre os acontecimentos do último final de semana, e antes que pudéssemos avançar com os comentários semana adentro fomos surpreendidos pelos dois, que entraram no carro às gargalhadas, provavelmente pelo deboche de um deles sobre alguém que passava pela rua.

Primeiramente conheci André: 19 anos, moreno, baixo, um corpo normal e que provavelmente não chamaria muita atenção meio a uma multidão... Bastou abrir a boca para que entregasse sua “feminilidade”: uma voz excessivamente gay e um papo absolutamente monossilábico, tentando ser discreto e ao mesmo tempo simpático – tentativa meio infrutífera, diga-se de passagem.

Eu realmente pensei que meu plano iria por algo abaixo se meu próximo “amigo” seguisse o perfil do primeiro. Foram alguns segundos assustadores até a entrada de Felipe: 19 anos, branco, cabelos loiros, olhos claros, mais baixo que o primeiro, suficientemente mais interessante para que meu retrovisor fosse realinhado em sua direção.


Resolvemos passar antes na casa de uma amiga e convidá-la a nos acompanhar. Marcela era uma espécie de irmã pra mim, a quem eu contava boa parte dos meus segredos... boa parte, afinal algumas coisas ainda eram um pouco agressiva pros seus ouvidos. Ficamos esperando por alguns minutos, que pra mim pareceram poucos pra admirar quem estava na minha frente.

Visivelmente constrangido, ele ainda fingia não perceber que meus olhos percorriam seu corpo, enquanto eu tentava entender como alguém com seu perfil havia chamado minha atenção. Toda tentativa de distração era inútil, já que não era mais possível controlar uma demonstração de interesse como aquela.

Talvez ele deva ter se perguntado como alguém poderia ter ficado impressionado tão rápido com alguém que ainda não conhecia. Mas talvez esse fosse o maior segredo de todos, aquilo que resultou em uma grande confusão amorosa: embora não me conhecesse, Felipe não era tão desconhecido pra mim.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Uma luz no fim do túnel

"At least my love has come along / My lonely days are over / And life is like a song"



O dia havia sido chato como todos os outros... o Congresso da faculdade me desgastava muito e me deixava cada vez mais em dúvida se Direito realmente seria uma boa opção. Entrar na faculdade aos 17 anos nos traz uma ideia de maturidade que jamais se torna realidade. A escolha aleatória do curso a fazer nos faz pensar até onde nos deixamos manipular pela vontade alheia ou por pretensões financeiras, embora aquela altura do campeonato nem sequer passava pela minha cabeça desistir da faculdade que agora tomava meu tempo. A vida também não corria da melhor forma: perder a namorada pra alguém pior que você não era exatamente o meu ideal de término de relacionamento, e realmente era mais do que chegada a hora de dar um pontapé na minha vida antiga e tocar pra frente uma vida nova, com novos objetivos e sem pensar muito em se adequar ao que é padrão para todos.

...
Recebi o convite para uma pizza logo após sentar pra mais uma noite de “intensos debates jurídicos”, e não pensei duas vezes em aceitá-lo, já que eu estava extremamente estressado pelo que acontecia ao meu redor, e mais ainda pela inércia de todos à chatice diante dos nossos olhos. Logicamente que, para quem me conhece, essa é uma desculpa das mais simplórias possíveis, pois o principal motivo do aceite para aquela pizza era, na verdade, dois... Dois amigos que iriam acompanhar minha amiga durante nosso divertidíssimo encontro gastronômico, e fazer novas amizades era um ponto crucial para o meu novo projeto de vida.

Já saí bem mais feliz do que entrei no Congresso, e enquanto ouvia Beyoncé no carro tentava de toda forma me apressar e ao mesmo tempo arrumar uma forma de aparentar um look agradável e ao mesmo tempo descolado, tentativa esta totalmente perdida, pois confesso que não estava exatamente bem vestido pra intensidade daquele evento recém-combinado: calça jeans, uma camisa social de um pano mega brega e um cabelo “Elza Soares” compunham meu visual deslumbrante daquela noite.

Enfim, valia a intenção, e naquela altura do campeonato a roupa já não era mais empecilho pra alguém que, pela primeira vez, se sentia a pessoa mais solitária do mundo... Sim, pela minha vida inteira nunca tive problemas com nenhum tipo de lugar ou pessoa, precisando de um mínimo de tempo para me adequar ao lugar onde eu estava e às pessoas que me rodeavam. Mas agora era diferente, e minha cabeça tinha necessidades além do meu entendimento, que nem eu mesmo pude compreender naquele momento, mal sabendo que em pouco tempo aquilo tudo pareceria mais fácil de entender. Mas aquele momento era agoniante, e a simples ideia de ficar sozinho já era aterrorizante por si só... Ali estava a minha oportunidade, a minha luz no fim do túnel.