Marcelo Soriano
Já haviam passado alguns dias desde o imprevisto na pizzaria, e eu mais uma vez tinha me enfurnado em casa, agora não mais para me esconder de todos, mas apenas daquela nova fase que insistia em me tocar... Esquisito entender porque aquilo, naquele momento, mas pior ainda era a vontade de vê-lo naquele instante, ou de alguma forma encontrá-lo, o mais rápido possível.
Talvez essa seja uma característica singular deste autor, mas quando alguém lhe chama atenção a ponto de lhe tirar a discrição e o bom senso é um pouco complicado imaginar-se saindo sem ela por perto. Não há como negar que as saídas no meio da noite, regadas a muito chope, já não tinham a mesma graça, pois minha cabeça já rodava por outros lugares, e para um homem é meio difícil pensar com a razão, ou com a “cabeça certa”.
Não tardou até que minha amiga me ligasse novamente para combinarmos uma nova saída... Obviamente me fiz de difícil no início, talvez tentando esconder o meu interesse, mas a resistência não durou muito, pois uma oportunidade como aquela não podia ser desperdiçada por uma besteira como meu orgulho, embora isso fosse difícil de aceitar.
Algumas horas depois estava dentro do meu carro, me dirigindo pra uma pracinha qualquer onde nós, os “descolados”, costumávamos ir beber. Marcela ia entusiasmada como sempre, não vendo a hora de chegar, enquanto André e Felipe procuravam entender a graça de “beber na praça”, mas ao mesmo tempo demonstrando certa receptividade à idéia.
Bastaram algumas horas para que as bebidas começassem a surtir efeito na minha cabeça, me deixando um pouco mais liberal e um pouco mais à vontade para tomar algumas atitudes que talvez me rendessem um arrependimento posterior... Dito e feito: não escondi de André meu interesse; pelo contrário, ele agora sabia de todas as minhas pretensões com Felipe e o motivo que me levava até ali, pois agora eu estava depositando em mãos alheias o meu possível futuro, deixando a ele possíveis argumentações para convencer Felipe a fazer o que eu queria.
Devagar eu entendo cada segundo da minha vida: sou maquiavélico, não no sentido ruim da palavra, mas no sentido de planejar como as coisas irão acontecer, e o que é preciso fazer para que as coisas saiam como eu espero, fazendo com que elas pareçam as mais naturais possíveis. É muito difícil para alguém como eu aceitar que as coisas possam depender de qualquer outro fator que não a minha vontade...
E agora ali estava eu, abrindo mão de um princípio que para mim fazia parte fundamental do que eu sou, que me distinguia dos demais e fazia sentir-me cada vez mais valorizado frente aos outros. Egoísmo da minha parte achar que o mundo gira em torno do meu umbigo, mas ainda não era a hora de deixar um princípio tão relevante como aquele de lado, ainda mais para algo tão impensado como aquilo...
Mas, ainda assim, ali estava eu, nas mãos de um qualquer que eu nem ao menos conhecia, sem certeza do que poderia acontecer, mas na esperança de que valesse a pena deixar de lado algo tão importante. Ingenuidade minha entregar-me ao bel-prazer de alguém que nem ao menos se importa com você, arriscando-me a pior das traições... Dito e feito.
