domingo, 25 de março de 2012

Da Vodka à boate, da boate ao choro...


A diversão ainda continuou noite adentro. Inclusive para mim, que continuava sorrindo aos quatro cantos, fingindo não ter sido abalado por aquilo que meus ouvidos escutaram há pouco tempo atrás, escondendo, na verdade, todo o ódio que me consumia e todo planejamento que aquela altura já encontrava-se detalhadamente traçado em minha cabeça. Ainda assim, me entreguei à bebida como todos aqueles que ali estavam...

Vodka! Das mais baratas possíveis, com o pior gosto imaginável para uma bebida que, segundo a televisão, era chique e de bom gosto. Mas nem isso teria a capacidade de me limitar: misturei com Coca, Sprite, Guaraná Antarctica e qualquer outra bebida que qualquer uma das pessoas ali me indicasse. O gosto continuava ruim, mas a impressão passada estava impecável, e esse era o objetivo naquele momento.

Da Vodka ao Martini foi um passo. Talvez alguns passos, por que a capacidade lógica já não fluía da mesma forma do Ensino Médio. Da Vodka ao Martini, e do Martini à boate gay... O convite partiu de Felipe, que admitiu comparecer fielmente à boate em questão. Minha cidade não é extamente o padrão de capital que todos tem na cabeça. Não ando em cima de elefantes, não adestro animais silvestres, tampouco ando trepado em cipós... mas, apesar de não gostar do esterótipo dado à nossa capital, não posso negar que a diversão aqui não é das melhores: uma boate "hetero", uma "gay" e alguns bares de origem questionável.

Apesar de não mais coseguir contar com exatidão, estava perfeitamente certo na direção do carro. Felipe foi jogado para outro dos carros que nos acompanhavam, talvez na esperança daquela beleza excomunal não chamar minha atenção, que já não era muita após toda aquela mistura de álcool e refrigerantes. Durante o caminho até a boate, Macela percebeu, por trás daquele escudo de alegria, uma pontinha de infelicidade e inquietação com algo que ela ainda não sabia o que era. Perguntou da forma que pode, com a discrição que pode, talvez por ter percebido algo, tentando ainda não deixar claro pra mim que aquilo que eu tanto lutei para esonder já estava visível a todos há muito tempo.

A chegada à boate deu-se mais rápido que o esperado. Logo de cara percebi que ali não seria o tipo de lugar que me veria muitas vezes, e ainda dentro do carro expressei minha incorfomação de estar ali, apesar de saber que, bem no fundo, aquele ambiente me dava uma sensação de segurança que nem eu mesmo conseguia compreender.

Estacionamos a alguns metros da entrada da boate, e ainda na calçada do outro lado da rua começamos a beber. Ou voltamos a beber, por que todo aquele percurso foi apenas uma interrupção da 'diversão' da bebedeira. Um dos meninos que nos acompanhavam surgiu com a surpresa que nos prometia desde o começo da noite, ainda na praça: uma garrafa de tequila! Sem copos... afinal, pra quê copos? Estávamos completamente dominados pela sensação de diversão da bebida, e o que menos nos preocupava naquele momento eram lições de etiqueta.

Mônica apareceu de surpresa à minha frente, e não pensei duas vezes em agarrá-la e forçar um beijo que ainda hoje tento explicar e, pior, entender. Não havia motivos, tampouco explicações para o que havia acontecido, ou simplesmente eu não queira admitir que o fora tomado há algumas horas me encheu de um rancor que nem ao menos me deu a chance de pensar no que eu estava fazendo; afinal, beijar uma menina, ainda por cima minha amiga, não era exatamente o que eu faria se quisesse irritar Felipe, mas a bebida tomou as rédeas do meu raciocínio e também do meu bom senso.

Daí ao excesso sentimental foi apenas um pulo, pois apesar de esconder, de qualquer forma, o ódio que me corrompia, a bebida o liberou desenfreadamente. Maldita bebida, e mais ainda: maldito eu, que a pus pra dentro, talvez imaginando que aquilo o faria sentir pena e cuidar de mim, ou até mesmo imaginando que beber me faria mais descolado - e quem não quer um cara descolado?

Erro meu, claro, mas um erro completamente compreensível, não fosse pela cena presenciada por todos que estavam ali: saí, pessoa a pessoa, soltando minha lamúrias e lamentações sobre o ocorrido, implorando por um pingo de companheirismoo, na expectativa de que alguém sentisse minhas angústias e fosse até Felipe, astutamente o convencendo que não havia outra escapatória senão meus braços. Não precisou de muitos minutos para que o pedido embaraçoso chegasse aos ouvidos de Felipe, e menos minutos ainda este levou para sumir de onde nós estávamos e adentrar na boate, escondendo-se na penumbra recheada de mãos e bocas...

Da Vodka à boate, da boate ao choro...

sábado, 17 de março de 2012

Politicamente correto

Realmente, aquela não era uma atitude que poderia ser imputada a alguém com o meu comportamento. Muito pelo contrário, já que eu nunca fui o tipo de pessoa que é passada para trás, muito menos daquelas que se machuca por qualquer besteira... 

Não me acho irresistível, e hoje já não me interesso em agradar a todos que me rodeiam... Já me dei conta também que metade daqueles que me rodeiam talvez não gostem tanto de mim quanto aparentam, e isso já não me preocupa mais tanto quanto antes, quando a minha maturidade ainda não sabia o que era existência.



Mais aí é que mora o grande problema: opiniões deveriam ser pessoais, e como pessoais deveriam pertencer somente àqueles que as detenham. Pouco me preocupou o fato de Felipe não se impressionar com a minha aparência, e esse comportamento inclusive já era o esperado. O motivo da minha indignação residia no simples fato daquela justificativa ter servido de motivo humorístico para as gargalhadas que ambos soltavam, como se imaginassem que tudo aquilo de que agora eles riam só aumentava em mim a vontade de fazer o mundo dar a volta um pouco mais depressa. Vingança é um prato que se come frio, mas uma sopradinha de leve não tem problema nenhum...



Como já era previsível, a noite acabou ali pra mim... mas somente pra mim. Apesar de estar extremamente irritado com o rumo que as coisas haviam tomado, não havia no mundo pessoa mais sorridente que eu. A alegria emanava do meu rosto de uma forma que nem eu mesmo poderia acreditar ser possível, enquanto na minha cabeça milhões de planos mirabolantes passavam por um casting, em busca do plano perfeito para reverter aquela situação e ficar em paz com meu orgulho.



Orgulho não, porque parece que o mundo considera o orgulho um defeito gravíssimo. Sim, o orgulho mesmo, aquele que nos priva de situações constrangedoras e que nos impede de nos destruir e nos rebaixar por qualquer besteira que nem ao menos vale a pena. O orgulho que nos traz uma sensação de melhoria interna, de evolução consigo mesmo. Mas parece que isso não é o que o resto do mundo quer, já que esse mesmo orgulho que eu jamais faria questão de deixar de lado machuca e ofende a todas as outras pessoas. Então façamos como o resto do mundo: vamos encobrir o óbvio...


Já não quero ficar em paz com meu orgulho, mas “tenho amor próprio”. Brega!?! Não... politicamente correto.

sábado, 10 de março de 2012

Mas não, não eu

"I like to think that I was created /For a special purpose / You know? "


Não demorou muito para que a minha intimidade com André começasse a surtir efeitos, em sua grande maioria desagradáveis. André é o tipo de pessoa em quem você não pode confiar, fazendo parte daquele grupo de pessoas que se tornam insuportáveis depois de um tempo: pessoas que impõem-se aos outros como se fossem mais importantes, pessoas que dão a você uma falsa ilusão de confiança, para que na primeira oportunidade possam apontar-lhe o dedo e mostrar como elas teriam agido...

Em um misto de fúria e surpresa pelo qual estou passando agora, simplesmente iria dizer que não poderia culpá-lo, já que a sua personalidade de se enaltecer à custa das desgraças dos outros seria digna de pena, e seu comportamento seria apenas um mecanismo de escape de uma vida rebaixada e desvalorizada.

Mas não, não eu. Deixar para trás meu orgulho e minhas convicções sem medir as conseqüências já fora um grande erro, e tentar culpar os outros pelas conseqüências inesperadas seria, talvez, um erro maior. Agora era hora de encarar o problema, e tentar de todas as formas driblar os obstáculos que se impunham a minha frente, e que agora estavam maiores do que jamais os imaginei.

Difícil entender este meu desabafo? Não, não mesmo. Difícil seria não compreendê-lo, e mais difícil ainda seria dar razão a André... Difícil não, ouso dizer impossível, uma tarefa hercúlea, que nem o mais bravo dos homens teria a capacidade de realizar, por um simples e único motivo:

André realmente foi falar com Felipe, e realmente lhe perguntou tudo que lhe foi pedido por mim. Entretanto, as coisas não soaram exatamente da mesma forma que eu esperava ouvi-las, ou melhor, foram extremamente contrárias a todo que eu havia planejado... Embora tenham tentado afastar-se do grupo, não foi tarefa muito difícil aproximar-me e ouvir o conteúdo da conversa. Pudera eu não ter ouvido o que foi dito, e simplesmente tocar a vida em frente, de bem com todos e com a suposta idéia de conquistar Felipe.

Mas não, não eu. Eu fiz o possível e o impossível para escutar o que foi dito, e do fundo das árvores pude ver os lábios de Felipe mexerem-se, e mais fácil ainda foi compreender o que saía deles, até porque daquela distância até mesmo um sussurro poderia ser ouvido. O que foi dito foi doloroso, mas ao mesmo tempo curioso: “Claro que não, André, nem em sonho eu quero alguma coisa com aquele negócio”.

É, não soou muito bem aos meus ouvidos também. Muito pelo contrário: aquilo soou como uma apunhalada nas costas, não por Felipe, que culpa alguma tinha de minhas expectativas, mas pura e simplesmente uma apunhalada dada por mim mesmo, abrindo mão de meus princípios e dando aos outros a oportunidade de me ferir.

Realmente... a traição contra nós mesmos é a pior de todas, pois percebemos o quanto nos colocamos vulneráveis frente ao mundo, e ainda assim continuamos dispostos a correr riscos e nos apunhalar, sem nem ao menos questionar se o real motivo de tudo valeria tanto a pena quanto imaginávamos.

Porque a raiva de André? Pois bem, agora vem o mais surpreendente: a mim André pediu que continuasse com a tentativa insistente de conquistar Felipe, apesar de tudo que ouviu de Felipe. Pior ainda era ouvir o que era falado, ao mesmo tempo que lembrava as gargalhadas que a palavra "negócio" havia causado entre os dois, enquanto André perguntava quanto alguém podia ser idiota a ponto de achar que podia algo com algum deles.

Agora resta a mim o que sempre resta a todos: culpar-se pelo acontecido e tentar entender o que precisava ser feito para mudar rumo das coisas, ou então simplesmente sair por aí contando o que aconteceu, dizendo ter aprendido muito com o que aconteceu, além de ter percebido o quão aquilo era insignificante, o quão aquilo era desnecessário à minha vida.

Compreensível, para não dizer hilário e deplorável... Mas enfim, pelo menos que eu saia por cima, saia como se tudo tivesse saído conforme o planejado, e que agora bastava tocar pra frente e encarar aquilo como a confirmação de algo que eu já sabia. Simples, afinal era isso que todo mundo fazia...

Mas não, não eu.