quarta-feira, 18 de abril de 2012

Hipocritamente justo


“It's a little too late for you to come back / Say it's just a mistake / Think I'd forgive you like that”



O mundo tenta, a todo custo, nos tornar um pouco mais justos e um bocado menos hipócritas, embora seja difícil crer nisso como uma tarefa possível. No meu caso, tomar a decisão sopesando a maior justiça e a menor hipocrisia me colocou numa grande encruzilhada paradoxal que jamais pudera ter imaginado estar: se por um lado parecia justo respeitar as escolhas alheias e levar a vida adiante, por outro parecia demasiado hipócrita não levar em consideração o sentimento de vingança que imperava dentro de mim.

Esse é o maior problema do ser humano... hipócritas como somos, levamos a vida “baseados” em valores e princípios que nunca foram nossos, e que alguns jamais sequer tiveram o interesse de possuí-los, enquanto por baixo dos panos apaixonamo-nos e nos deixamos guiar pela vingança e pelo rancor, sem nos darmos conta do comportamento hipócrita que construímos. Mas se o que interessa mesmo é o que aparentamos para os outros, e como usamos nossa retórica para enaltecer modelos de conduta e ideais de justiça, pra quê pararmos pra pensar no que realmente nos dá prazer, não é mesmo?

Não. Eu, no direito de escolha que me foi dado, escolhi ser justo e não ser hipócrita. Impossível? Não, pois escolhi ser justo, mas justo comigo, não com o mundo, e isso implicava no fato de não ser hipócrita e aceitar que a vingança agora era o que me dava prazer, e somente dar a volta por cima era o que me faria sentir melhor. Um pensamento um tanto quanto construído, admito, mas uma lógica necessária para me acalentar naquele momento.

Pensamento aceito, agora era hora de botar a mão na massa e construir as situações e oportunidades necessárias para que as coisas corressem de acordo com o planejado. Assim foi a volta pra casa, filosofando em  meio aos copos de bebida ingeridos, mas com a única certeza de que os pensamentos tomados naquele momento seriam os mesmos a serem pensados depois. Bêbado ou não, aquilo deveria ser feito, e agora não havia tempo ou possibilidade de voltar atrás. Merda feita, era hora de consertar.

domingo, 15 de abril de 2012

Instinto


"What goes around comes back around / What goes around comes back around" 


O último encontro com Felipe não tinha sido executado exatamente de acordo com os planos, ainda por que àquela altura dos fatos já não havia plano, tampouco alternativa qualquer senão assumir a derrota e recolher as armas do grande jogo que aquilo tinha se tornado. O que era óbvio, entretanto, era que a ideia de sair “por baixo”, com o rabo entre as pernas, não era bem o que eu pensava naquele momento.

Quanto à Felipe nada podia ser feito, já que há muito o mesmo havia se separado dos outros, e provavelmente ainda encontrava-se dentro da boate, entregue às bebidas e à toda sorte de mãos que houvessem por lá; quanto a mim, contudo, ainda me restavam amigos, e junto à eles um sentimento de pena que eu jamais havia visto no rosto de qualquer um deles, como se aquele momento fosse único e inesperado, e como se não soubessem que o estava por vir seria ainda pior.

Dali realmente já não havia mais volta, sobretudo para mim. O que havia começado como um flerte, pra um tornou-se brincadeira, pra outro coisa séria, e agora me encontrava em um caminho sem volta, rondado pelo sentimento de orgulho, que em condição alguma me deixaria fraquejar e voltar atrás.

[...]

Instinto... como entendê-lo? Por vezes nos colocamos em situações estranhas ao nosso comportamento, nos submetendo à condições aquém de nossos princípios – muitas vezes humilhantes – por entendermos ser tal situação a melhor para aquele nosso momento, indo de encontro ao que estipulamos como modelo individual de comportamento e, acima de tudo, indo de encontro aos nossos instintos. E daí surge o grande mistério: de onde tais “instintos” surgem? Como saber quando segui-los? Até onde devemos nos deixar influenciar?

Junto a tal questionamento surge resposta igualmente aterradora: nunca saberemos! Se estes realmente vêm de nosso subconsciente, alguma linha de razão deve existir nestes pobres, até por que difícil seria imaginar que a mesma cabeça que traça limites de comportamento é a mesma que se disfarça em pele de cordeiro e nos faz trair a nós mesmos. Difícil? Talvez. Improvável? Jamais.

Verdadeiros ou não, corretos ou não, cabe a cada um saber quando segui-los e até onde ouvi-los. A mim deram prova total de confiança, sendo improvável a situação na qual não me ceda aos deleites de ouvi-lo, ainda que baixinho, quanto ao que fazer em cada situação. Não seria diferente a esta altura e, junto ao sentimento de vergonha, outro veio à tona com força total, não deixando lugar à qualquer outro sentimento, por mais racional que fosse, quanto à forma de agir frente à situação, meus amigos e, sobretudo, Felipe; um sentimento irracional, desproporcional, incapaz de criar qualquer outra conseqüência senão uma cadeia eterna de rancor e amargura: o sentimento de vingança.     

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Mas não, não eu [2]

"Now I'm at a place I thought I'd never be / I'm living in a world that's all about you and me..."


Depois do vexame dado e das palavras constrangedoras, Felipe saiu de lá sem nem ao menos se pronunciar sobre aquilo que há pouco havia ouvido. Da mesma forma que chegou foi embora, sem que eu percebesse... nem ao menos despediu-se, até por que àquela altura do campeonato voltar para se despedir não seria a atitude mais sensata. 

Aquele fora o primeiro arrependimento. Talvez fazer o que escândalo feito não tenha sido a melhor solução para conseguir o que eu tanto queria, mas nessas horas o coração pensa um pouco mais que o juízo, e nem todas as nossas ações passam a guiar-se pela razão, mas sim pela emoção. Perde-se o controle do razoável, e entrega-se ao domínio daquilo que não tem controle, e que acaba por te tragar para um turbilhão de emoções, do qual você não consegue sair, tampouco fazê-lo parar.
Foi aquilo que aconteceu ali, naquele momento. Medo de perder. Mas perder o quê, se nunca tive nada daquilo que queria? Devagar as coisas foram voltando ao normal, a cabeça doía menos, a rua girava mais devagar, as pessoas começaram a agir com mais discrição, enquanto observavam o bêbado caído no chão, mais uma coisa ainda me intrigava: até onde eu precisaria ir?

Até por que há muito tempo já havia ultrapassado dos meus limites, e agora me sentia derrotado por ter perdido algo que eu nunca tive, derrotado por jogar da forma que considerava mais sensata – e manipuladora – e encontrar um adversário tão “malandro” quanto eu, dotado de defesas e escapatórias que para mim não precisariam ser imaginadas, tão pouco efetivadas.

Mas era isso o que acontecia agora, e eu estava no redemoinho emocional de que tanto tentei manter distância. É bom ser um livro aberto, mas é bem melhor esconder o que realmente se sente: primeiro por não poder confiar em todos aqueles que estão plenamente dispostos a te ouvir, para não se correr o risco de ver o que você considera sigiloso correr à solta pelas bocas alheias; depois que, algumas vezes, abrir a boca e falar o que sente é entregar-se a uma vulnerabilidade que em momento algum lhe ajudará, imputando a você uma imagem manipulável e sensível demais aos olhos de pessoas que – como eu imaginava ser – queiram tirar proveito disso.

Mas aquilo já não era mais problema, afinal, o que poderia ser feito para evitar tais situações não aconteceu, e o que podia ter sido feito para piorá-la foi realizado com maestria por mim. Agora era baixar a cabeça e voltar pra casa, talvez na esperança daquilo ser esquecido em pouco tempo. Era preciso paciência, e nada mais me incomodava do que isso: paciência. Admitir o erro e reconstruir a situação. Admitir que perdi e procurar tomar outro rumo pra vida. Isso é o que se ouve, o que aconselham os amigos e o que seria o mais prudente a fazer. Mas não, não eu.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Je t´aime


Aguentei o tanto quanto pude, mas o que acontecia ali fugia do lógico e do compreensível, e passava agora a ser constrangedor e humilhante, pois cada tentativa de aproximação resultava em uma exclusão mais e mais embaraçosa, e ainda assim continuava eu em minha caçada constante àquele que me tiraria de toda aquela situação vexatória.


Procurei por alguns minutos, e ao ter certeza que Felipe não mais voltaria, tampouco me procuraria, me entreguei ao choro. Ali mesmo, jogado na grama, em frente à memorável S-69, que após aquilo certamente seria agora memorável também para mim, talvez não pelos mesmos motivos alheios, mas ainda assim memorável.

Ali sim, entreguei-me ao choro, e mais: entreguei-me à derrota. Admiti ali que havia fracassado no meu plano de vingança, e agora de uma vez por todas era preciso por cabeça no lugar e pensar no que devia ser feito, porque com habilidade e atenção tudo é mutável, e tudo pode ser encaixado à qualquer modelo de vida que se planeje levar. 

Mas não agora, afinal aquela era hora do show, e de forma alguma eu podia passar despercebido depois de toda aquela situação constrangedora. Chorei, gritei, deitei. Ali ainda continuei soluçando, enquanto gritava repetidamente o nome de Felipe, esperando que algum bom samaritano chamasse-o ao meu encontro. Dito e feito. Felipe chegou sem nem ao menos eu dar conta, e enquanto gritava por seu nome ele dava voltas e voltas, tentando entender como aquilo havia fugido do controle e até onde eu poderia continuar com aquilo...

Continuei enquanto pude, continuei enquanto minha garganta pode gritar, enquanto o soluço não tomou conta da minha voz e enquanto ainda tinha consciência pra falar o que queria e reclamar do que não podia mais ter. Reclamei a quem queria ouvir, da forma que podia me expressar, sem pensar sequer em quem estava ao meu redor, tampouco o quanto eu estava me expondo à amigos e à desconhecidos. Reclamei dos amigos, também dos desconhecidos, só depois me dando conta de quem estava ao meu redor. 

Vi Felipe em meio às minhas lágrimas, e ainda pensei que poderia ele estar ali por simples educação. Devagar o choro foi parando. Devagar Felipe foi se aproximando. Devagar meus lábios se mexeram e algumas poucas palavras saíram: - Eu te amo, cara...

domingo, 25 de março de 2012

Da Vodka à boate, da boate ao choro...


A diversão ainda continuou noite adentro. Inclusive para mim, que continuava sorrindo aos quatro cantos, fingindo não ter sido abalado por aquilo que meus ouvidos escutaram há pouco tempo atrás, escondendo, na verdade, todo o ódio que me consumia e todo planejamento que aquela altura já encontrava-se detalhadamente traçado em minha cabeça. Ainda assim, me entreguei à bebida como todos aqueles que ali estavam...

Vodka! Das mais baratas possíveis, com o pior gosto imaginável para uma bebida que, segundo a televisão, era chique e de bom gosto. Mas nem isso teria a capacidade de me limitar: misturei com Coca, Sprite, Guaraná Antarctica e qualquer outra bebida que qualquer uma das pessoas ali me indicasse. O gosto continuava ruim, mas a impressão passada estava impecável, e esse era o objetivo naquele momento.

Da Vodka ao Martini foi um passo. Talvez alguns passos, por que a capacidade lógica já não fluía da mesma forma do Ensino Médio. Da Vodka ao Martini, e do Martini à boate gay... O convite partiu de Felipe, que admitiu comparecer fielmente à boate em questão. Minha cidade não é extamente o padrão de capital que todos tem na cabeça. Não ando em cima de elefantes, não adestro animais silvestres, tampouco ando trepado em cipós... mas, apesar de não gostar do esterótipo dado à nossa capital, não posso negar que a diversão aqui não é das melhores: uma boate "hetero", uma "gay" e alguns bares de origem questionável.

Apesar de não mais coseguir contar com exatidão, estava perfeitamente certo na direção do carro. Felipe foi jogado para outro dos carros que nos acompanhavam, talvez na esperança daquela beleza excomunal não chamar minha atenção, que já não era muita após toda aquela mistura de álcool e refrigerantes. Durante o caminho até a boate, Macela percebeu, por trás daquele escudo de alegria, uma pontinha de infelicidade e inquietação com algo que ela ainda não sabia o que era. Perguntou da forma que pode, com a discrição que pode, talvez por ter percebido algo, tentando ainda não deixar claro pra mim que aquilo que eu tanto lutei para esonder já estava visível a todos há muito tempo.

A chegada à boate deu-se mais rápido que o esperado. Logo de cara percebi que ali não seria o tipo de lugar que me veria muitas vezes, e ainda dentro do carro expressei minha incorfomação de estar ali, apesar de saber que, bem no fundo, aquele ambiente me dava uma sensação de segurança que nem eu mesmo conseguia compreender.

Estacionamos a alguns metros da entrada da boate, e ainda na calçada do outro lado da rua começamos a beber. Ou voltamos a beber, por que todo aquele percurso foi apenas uma interrupção da 'diversão' da bebedeira. Um dos meninos que nos acompanhavam surgiu com a surpresa que nos prometia desde o começo da noite, ainda na praça: uma garrafa de tequila! Sem copos... afinal, pra quê copos? Estávamos completamente dominados pela sensação de diversão da bebida, e o que menos nos preocupava naquele momento eram lições de etiqueta.

Mônica apareceu de surpresa à minha frente, e não pensei duas vezes em agarrá-la e forçar um beijo que ainda hoje tento explicar e, pior, entender. Não havia motivos, tampouco explicações para o que havia acontecido, ou simplesmente eu não queira admitir que o fora tomado há algumas horas me encheu de um rancor que nem ao menos me deu a chance de pensar no que eu estava fazendo; afinal, beijar uma menina, ainda por cima minha amiga, não era exatamente o que eu faria se quisesse irritar Felipe, mas a bebida tomou as rédeas do meu raciocínio e também do meu bom senso.

Daí ao excesso sentimental foi apenas um pulo, pois apesar de esconder, de qualquer forma, o ódio que me corrompia, a bebida o liberou desenfreadamente. Maldita bebida, e mais ainda: maldito eu, que a pus pra dentro, talvez imaginando que aquilo o faria sentir pena e cuidar de mim, ou até mesmo imaginando que beber me faria mais descolado - e quem não quer um cara descolado?

Erro meu, claro, mas um erro completamente compreensível, não fosse pela cena presenciada por todos que estavam ali: saí, pessoa a pessoa, soltando minha lamúrias e lamentações sobre o ocorrido, implorando por um pingo de companheirismoo, na expectativa de que alguém sentisse minhas angústias e fosse até Felipe, astutamente o convencendo que não havia outra escapatória senão meus braços. Não precisou de muitos minutos para que o pedido embaraçoso chegasse aos ouvidos de Felipe, e menos minutos ainda este levou para sumir de onde nós estávamos e adentrar na boate, escondendo-se na penumbra recheada de mãos e bocas...

Da Vodka à boate, da boate ao choro...

sábado, 17 de março de 2012

Politicamente correto

Realmente, aquela não era uma atitude que poderia ser imputada a alguém com o meu comportamento. Muito pelo contrário, já que eu nunca fui o tipo de pessoa que é passada para trás, muito menos daquelas que se machuca por qualquer besteira... 

Não me acho irresistível, e hoje já não me interesso em agradar a todos que me rodeiam... Já me dei conta também que metade daqueles que me rodeiam talvez não gostem tanto de mim quanto aparentam, e isso já não me preocupa mais tanto quanto antes, quando a minha maturidade ainda não sabia o que era existência.



Mais aí é que mora o grande problema: opiniões deveriam ser pessoais, e como pessoais deveriam pertencer somente àqueles que as detenham. Pouco me preocupou o fato de Felipe não se impressionar com a minha aparência, e esse comportamento inclusive já era o esperado. O motivo da minha indignação residia no simples fato daquela justificativa ter servido de motivo humorístico para as gargalhadas que ambos soltavam, como se imaginassem que tudo aquilo de que agora eles riam só aumentava em mim a vontade de fazer o mundo dar a volta um pouco mais depressa. Vingança é um prato que se come frio, mas uma sopradinha de leve não tem problema nenhum...



Como já era previsível, a noite acabou ali pra mim... mas somente pra mim. Apesar de estar extremamente irritado com o rumo que as coisas haviam tomado, não havia no mundo pessoa mais sorridente que eu. A alegria emanava do meu rosto de uma forma que nem eu mesmo poderia acreditar ser possível, enquanto na minha cabeça milhões de planos mirabolantes passavam por um casting, em busca do plano perfeito para reverter aquela situação e ficar em paz com meu orgulho.



Orgulho não, porque parece que o mundo considera o orgulho um defeito gravíssimo. Sim, o orgulho mesmo, aquele que nos priva de situações constrangedoras e que nos impede de nos destruir e nos rebaixar por qualquer besteira que nem ao menos vale a pena. O orgulho que nos traz uma sensação de melhoria interna, de evolução consigo mesmo. Mas parece que isso não é o que o resto do mundo quer, já que esse mesmo orgulho que eu jamais faria questão de deixar de lado machuca e ofende a todas as outras pessoas. Então façamos como o resto do mundo: vamos encobrir o óbvio...


Já não quero ficar em paz com meu orgulho, mas “tenho amor próprio”. Brega!?! Não... politicamente correto.

sábado, 10 de março de 2012

Mas não, não eu

"I like to think that I was created /For a special purpose / You know? "


Não demorou muito para que a minha intimidade com André começasse a surtir efeitos, em sua grande maioria desagradáveis. André é o tipo de pessoa em quem você não pode confiar, fazendo parte daquele grupo de pessoas que se tornam insuportáveis depois de um tempo: pessoas que impõem-se aos outros como se fossem mais importantes, pessoas que dão a você uma falsa ilusão de confiança, para que na primeira oportunidade possam apontar-lhe o dedo e mostrar como elas teriam agido...

Em um misto de fúria e surpresa pelo qual estou passando agora, simplesmente iria dizer que não poderia culpá-lo, já que a sua personalidade de se enaltecer à custa das desgraças dos outros seria digna de pena, e seu comportamento seria apenas um mecanismo de escape de uma vida rebaixada e desvalorizada.

Mas não, não eu. Deixar para trás meu orgulho e minhas convicções sem medir as conseqüências já fora um grande erro, e tentar culpar os outros pelas conseqüências inesperadas seria, talvez, um erro maior. Agora era hora de encarar o problema, e tentar de todas as formas driblar os obstáculos que se impunham a minha frente, e que agora estavam maiores do que jamais os imaginei.

Difícil entender este meu desabafo? Não, não mesmo. Difícil seria não compreendê-lo, e mais difícil ainda seria dar razão a André... Difícil não, ouso dizer impossível, uma tarefa hercúlea, que nem o mais bravo dos homens teria a capacidade de realizar, por um simples e único motivo:

André realmente foi falar com Felipe, e realmente lhe perguntou tudo que lhe foi pedido por mim. Entretanto, as coisas não soaram exatamente da mesma forma que eu esperava ouvi-las, ou melhor, foram extremamente contrárias a todo que eu havia planejado... Embora tenham tentado afastar-se do grupo, não foi tarefa muito difícil aproximar-me e ouvir o conteúdo da conversa. Pudera eu não ter ouvido o que foi dito, e simplesmente tocar a vida em frente, de bem com todos e com a suposta idéia de conquistar Felipe.

Mas não, não eu. Eu fiz o possível e o impossível para escutar o que foi dito, e do fundo das árvores pude ver os lábios de Felipe mexerem-se, e mais fácil ainda foi compreender o que saía deles, até porque daquela distância até mesmo um sussurro poderia ser ouvido. O que foi dito foi doloroso, mas ao mesmo tempo curioso: “Claro que não, André, nem em sonho eu quero alguma coisa com aquele negócio”.

É, não soou muito bem aos meus ouvidos também. Muito pelo contrário: aquilo soou como uma apunhalada nas costas, não por Felipe, que culpa alguma tinha de minhas expectativas, mas pura e simplesmente uma apunhalada dada por mim mesmo, abrindo mão de meus princípios e dando aos outros a oportunidade de me ferir.

Realmente... a traição contra nós mesmos é a pior de todas, pois percebemos o quanto nos colocamos vulneráveis frente ao mundo, e ainda assim continuamos dispostos a correr riscos e nos apunhalar, sem nem ao menos questionar se o real motivo de tudo valeria tanto a pena quanto imaginávamos.

Porque a raiva de André? Pois bem, agora vem o mais surpreendente: a mim André pediu que continuasse com a tentativa insistente de conquistar Felipe, apesar de tudo que ouviu de Felipe. Pior ainda era ouvir o que era falado, ao mesmo tempo que lembrava as gargalhadas que a palavra "negócio" havia causado entre os dois, enquanto André perguntava quanto alguém podia ser idiota a ponto de achar que podia algo com algum deles.

Agora resta a mim o que sempre resta a todos: culpar-se pelo acontecido e tentar entender o que precisava ser feito para mudar rumo das coisas, ou então simplesmente sair por aí contando o que aconteceu, dizendo ter aprendido muito com o que aconteceu, além de ter percebido o quão aquilo era insignificante, o quão aquilo era desnecessário à minha vida.

Compreensível, para não dizer hilário e deplorável... Mas enfim, pelo menos que eu saia por cima, saia como se tudo tivesse saído conforme o planejado, e que agora bastava tocar pra frente e encarar aquilo como a confirmação de algo que eu já sabia. Simples, afinal era isso que todo mundo fazia...

Mas não, não eu.