domingo, 15 de abril de 2012

Instinto


"What goes around comes back around / What goes around comes back around" 


O último encontro com Felipe não tinha sido executado exatamente de acordo com os planos, ainda por que àquela altura dos fatos já não havia plano, tampouco alternativa qualquer senão assumir a derrota e recolher as armas do grande jogo que aquilo tinha se tornado. O que era óbvio, entretanto, era que a ideia de sair “por baixo”, com o rabo entre as pernas, não era bem o que eu pensava naquele momento.

Quanto à Felipe nada podia ser feito, já que há muito o mesmo havia se separado dos outros, e provavelmente ainda encontrava-se dentro da boate, entregue às bebidas e à toda sorte de mãos que houvessem por lá; quanto a mim, contudo, ainda me restavam amigos, e junto à eles um sentimento de pena que eu jamais havia visto no rosto de qualquer um deles, como se aquele momento fosse único e inesperado, e como se não soubessem que o estava por vir seria ainda pior.

Dali realmente já não havia mais volta, sobretudo para mim. O que havia começado como um flerte, pra um tornou-se brincadeira, pra outro coisa séria, e agora me encontrava em um caminho sem volta, rondado pelo sentimento de orgulho, que em condição alguma me deixaria fraquejar e voltar atrás.

[...]

Instinto... como entendê-lo? Por vezes nos colocamos em situações estranhas ao nosso comportamento, nos submetendo à condições aquém de nossos princípios – muitas vezes humilhantes – por entendermos ser tal situação a melhor para aquele nosso momento, indo de encontro ao que estipulamos como modelo individual de comportamento e, acima de tudo, indo de encontro aos nossos instintos. E daí surge o grande mistério: de onde tais “instintos” surgem? Como saber quando segui-los? Até onde devemos nos deixar influenciar?

Junto a tal questionamento surge resposta igualmente aterradora: nunca saberemos! Se estes realmente vêm de nosso subconsciente, alguma linha de razão deve existir nestes pobres, até por que difícil seria imaginar que a mesma cabeça que traça limites de comportamento é a mesma que se disfarça em pele de cordeiro e nos faz trair a nós mesmos. Difícil? Talvez. Improvável? Jamais.

Verdadeiros ou não, corretos ou não, cabe a cada um saber quando segui-los e até onde ouvi-los. A mim deram prova total de confiança, sendo improvável a situação na qual não me ceda aos deleites de ouvi-lo, ainda que baixinho, quanto ao que fazer em cada situação. Não seria diferente a esta altura e, junto ao sentimento de vergonha, outro veio à tona com força total, não deixando lugar à qualquer outro sentimento, por mais racional que fosse, quanto à forma de agir frente à situação, meus amigos e, sobretudo, Felipe; um sentimento irracional, desproporcional, incapaz de criar qualquer outra conseqüência senão uma cadeia eterna de rancor e amargura: o sentimento de vingança.     

Nenhum comentário:

Postar um comentário