segunda-feira, 9 de abril de 2012

Mas não, não eu [2]

"Now I'm at a place I thought I'd never be / I'm living in a world that's all about you and me..."


Depois do vexame dado e das palavras constrangedoras, Felipe saiu de lá sem nem ao menos se pronunciar sobre aquilo que há pouco havia ouvido. Da mesma forma que chegou foi embora, sem que eu percebesse... nem ao menos despediu-se, até por que àquela altura do campeonato voltar para se despedir não seria a atitude mais sensata. 

Aquele fora o primeiro arrependimento. Talvez fazer o que escândalo feito não tenha sido a melhor solução para conseguir o que eu tanto queria, mas nessas horas o coração pensa um pouco mais que o juízo, e nem todas as nossas ações passam a guiar-se pela razão, mas sim pela emoção. Perde-se o controle do razoável, e entrega-se ao domínio daquilo que não tem controle, e que acaba por te tragar para um turbilhão de emoções, do qual você não consegue sair, tampouco fazê-lo parar.
Foi aquilo que aconteceu ali, naquele momento. Medo de perder. Mas perder o quê, se nunca tive nada daquilo que queria? Devagar as coisas foram voltando ao normal, a cabeça doía menos, a rua girava mais devagar, as pessoas começaram a agir com mais discrição, enquanto observavam o bêbado caído no chão, mais uma coisa ainda me intrigava: até onde eu precisaria ir?

Até por que há muito tempo já havia ultrapassado dos meus limites, e agora me sentia derrotado por ter perdido algo que eu nunca tive, derrotado por jogar da forma que considerava mais sensata – e manipuladora – e encontrar um adversário tão “malandro” quanto eu, dotado de defesas e escapatórias que para mim não precisariam ser imaginadas, tão pouco efetivadas.

Mas era isso o que acontecia agora, e eu estava no redemoinho emocional de que tanto tentei manter distância. É bom ser um livro aberto, mas é bem melhor esconder o que realmente se sente: primeiro por não poder confiar em todos aqueles que estão plenamente dispostos a te ouvir, para não se correr o risco de ver o que você considera sigiloso correr à solta pelas bocas alheias; depois que, algumas vezes, abrir a boca e falar o que sente é entregar-se a uma vulnerabilidade que em momento algum lhe ajudará, imputando a você uma imagem manipulável e sensível demais aos olhos de pessoas que – como eu imaginava ser – queiram tirar proveito disso.

Mas aquilo já não era mais problema, afinal, o que poderia ser feito para evitar tais situações não aconteceu, e o que podia ter sido feito para piorá-la foi realizado com maestria por mim. Agora era baixar a cabeça e voltar pra casa, talvez na esperança daquilo ser esquecido em pouco tempo. Era preciso paciência, e nada mais me incomodava do que isso: paciência. Admitir o erro e reconstruir a situação. Admitir que perdi e procurar tomar outro rumo pra vida. Isso é o que se ouve, o que aconselham os amigos e o que seria o mais prudente a fazer. Mas não, não eu.

Um comentário:

  1. Que profundo as palavras!
    Gostei muito do post e do blog por inteiro!
    Me tornando leitor assiduo dele!

    Obrigado por proporcionar inspiração para ler-lo
    Abraço
    Eric
    http://avidasemascaras.blogspot.com/

    ResponderExcluir