sábado, 10 de março de 2012

Mas não, não eu

"I like to think that I was created /For a special purpose / You know? "


Não demorou muito para que a minha intimidade com André começasse a surtir efeitos, em sua grande maioria desagradáveis. André é o tipo de pessoa em quem você não pode confiar, fazendo parte daquele grupo de pessoas que se tornam insuportáveis depois de um tempo: pessoas que impõem-se aos outros como se fossem mais importantes, pessoas que dão a você uma falsa ilusão de confiança, para que na primeira oportunidade possam apontar-lhe o dedo e mostrar como elas teriam agido...

Em um misto de fúria e surpresa pelo qual estou passando agora, simplesmente iria dizer que não poderia culpá-lo, já que a sua personalidade de se enaltecer à custa das desgraças dos outros seria digna de pena, e seu comportamento seria apenas um mecanismo de escape de uma vida rebaixada e desvalorizada.

Mas não, não eu. Deixar para trás meu orgulho e minhas convicções sem medir as conseqüências já fora um grande erro, e tentar culpar os outros pelas conseqüências inesperadas seria, talvez, um erro maior. Agora era hora de encarar o problema, e tentar de todas as formas driblar os obstáculos que se impunham a minha frente, e que agora estavam maiores do que jamais os imaginei.

Difícil entender este meu desabafo? Não, não mesmo. Difícil seria não compreendê-lo, e mais difícil ainda seria dar razão a André... Difícil não, ouso dizer impossível, uma tarefa hercúlea, que nem o mais bravo dos homens teria a capacidade de realizar, por um simples e único motivo:

André realmente foi falar com Felipe, e realmente lhe perguntou tudo que lhe foi pedido por mim. Entretanto, as coisas não soaram exatamente da mesma forma que eu esperava ouvi-las, ou melhor, foram extremamente contrárias a todo que eu havia planejado... Embora tenham tentado afastar-se do grupo, não foi tarefa muito difícil aproximar-me e ouvir o conteúdo da conversa. Pudera eu não ter ouvido o que foi dito, e simplesmente tocar a vida em frente, de bem com todos e com a suposta idéia de conquistar Felipe.

Mas não, não eu. Eu fiz o possível e o impossível para escutar o que foi dito, e do fundo das árvores pude ver os lábios de Felipe mexerem-se, e mais fácil ainda foi compreender o que saía deles, até porque daquela distância até mesmo um sussurro poderia ser ouvido. O que foi dito foi doloroso, mas ao mesmo tempo curioso: “Claro que não, André, nem em sonho eu quero alguma coisa com aquele negócio”.

É, não soou muito bem aos meus ouvidos também. Muito pelo contrário: aquilo soou como uma apunhalada nas costas, não por Felipe, que culpa alguma tinha de minhas expectativas, mas pura e simplesmente uma apunhalada dada por mim mesmo, abrindo mão de meus princípios e dando aos outros a oportunidade de me ferir.

Realmente... a traição contra nós mesmos é a pior de todas, pois percebemos o quanto nos colocamos vulneráveis frente ao mundo, e ainda assim continuamos dispostos a correr riscos e nos apunhalar, sem nem ao menos questionar se o real motivo de tudo valeria tanto a pena quanto imaginávamos.

Porque a raiva de André? Pois bem, agora vem o mais surpreendente: a mim André pediu que continuasse com a tentativa insistente de conquistar Felipe, apesar de tudo que ouviu de Felipe. Pior ainda era ouvir o que era falado, ao mesmo tempo que lembrava as gargalhadas que a palavra "negócio" havia causado entre os dois, enquanto André perguntava quanto alguém podia ser idiota a ponto de achar que podia algo com algum deles.

Agora resta a mim o que sempre resta a todos: culpar-se pelo acontecido e tentar entender o que precisava ser feito para mudar rumo das coisas, ou então simplesmente sair por aí contando o que aconteceu, dizendo ter aprendido muito com o que aconteceu, além de ter percebido o quão aquilo era insignificante, o quão aquilo era desnecessário à minha vida.

Compreensível, para não dizer hilário e deplorável... Mas enfim, pelo menos que eu saia por cima, saia como se tudo tivesse saído conforme o planejado, e que agora bastava tocar pra frente e encarar aquilo como a confirmação de algo que eu já sabia. Simples, afinal era isso que todo mundo fazia...

Mas não, não eu.

3 comentários:

  1. To acompanhando agora. To muito curioso pela história que vc conta. Parabéns mesmo.

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  2. As vezes as amizades os surpreende, fique de olho...
    Forte abraço!

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  3. meu blog http://meuamordavi.blogspot.com.br/

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